terça-feira, dezembro 11, 2012

Férias III - Pidal Cainejo

Corria o dia 23 de Agosto do ano de 2012.
Acordamos cedo, e depois de cumprimentar o sol,  começamos o dia com o habitual pequeno almoço reforçado. De seguida preparamos a quinquilharia, a malta da tenda ao lado, que arrumava também as coisas, reparou que os nossos arrumos eram diferentes.
- Vão escalar?!
- Vamos.
E fomos, depois das despedidas. Eles iam partir para uma aventura mediterrânica, com barcos, highlines e outras cenas maradas.
Novamente o canal de la celada. Novamente a aproximação à parede Este.
Subimos à direita do caracteristico "Y" da "Cepeda", destrepamos um pouco até ver o caminho, por umas placas horizontais, até à gruta da primeira reunião.
Naquele dia estavam dois loucos a dar nós nas cordas no nicho da R1.
- Hummm! A pidal com abrasados por cima?! J'amais.  - mas um começa uma travessia em nossa direcção.
- Ei campiónes. Ides subir ou Bá'rrar! - gritei eu em portunhol.
- EIAAARRRH!? - guinchou um deles, e eu comentei com a Natália.
- Eles baixam.
- Percebeste o que ele disse?!
- Não. Mas aquele guincho, é o som do miolo a estorricar.

Começamos a subir em direcção ao tal Nicho, cruzei-me com o sujeito que olhou para mim, com olhos esbugalhados. Eles lá desceram. E nós reunimos no nicho. Naquele dia a parede estava deserta, quase toda a gente tinha descido, culpa das previsões meteorológicas.  Que davam nuvens escuras, e para a tarde, talvez chuva, talvez garnizos e quiça tormenta eléctrica, daquelas em que se houve o zumbido das abelhas.

Nós tínhamos lido o relato de Dom Pedro, e sabíamos que eles tinham subido e destrepado aquele itinerário em poucas horas.
A llambrialina
Saí do nicho pela famosa llambrialina, e depois de um "S" estava de novo na reunião. De onde pudemos sair a caminhar, baixar um pouco e caminhar aí uns 100 metros, em direcção ao ombro norte. Aqui o maior perigo é mandar pedras para quem passa no canal de la celada. Pode-se fazer desencordados, mas nós optámos por passar esta travessia com cuidadinho e em ensamble.

O inicio da 2ª parte da via, em direcção à grande e evidente chaminé, já é de escalada autêntica, fácil mas escalada. São cerca de 60 metros bastante verticais de quinto grau mantenido, com muitos pitons a indicar o caminho (em linha recta). Neste largo as nuvens ficaram mais escuras, o vento assobiava alto e para apimentar a coisa, andava um helicóptero a fazer a ronda e a impossibilitar a comunicação.
Por cima ficava o famoso passo da pança da burra. Eu emocionado, ia comentando com a Natália, passagens do relato de Dom Pedro Pidal sobre a primeira ascensão ao Picu. Talvez uns metros antes da dita panza a Natália diz-me mais ou menos assim (fica melhor na História):
- Sérgio, não quero saber mais da Loucura de um aristocrata (que não queria nenhum gringo no cume virgem dos seus Picos de Europa) e de um pastor, de Cainejos nem de Marqueses, que subiram em 5 de Agosto de 1904, amarrados um ao outro por uma corda de cânhamo (comprada em Londres para o efeito), sem pontos intermédios, e sem conhecer sequer a técnica de rapel. Um descalço outro de alpargatas (compradas em Madrid para o efeito). Não quero que voltes a contar do passo de ombros que fizeram na pansa da burra. Da garrafa de vinho que levavam.. Não quero também que repitas que destreparam por aqui em iguais condições a murmurar, Diós mio, Diós mio, como subi io por aqui. Foram uns bravos do C%#"%&&% conquistaram pela primeira vez e essas tangas todas. Agora estou aqui eu e tu, mais ninguém! o tempo está a ficar feio pra caraças, vem aí a tempestade. O Helicopeter não se cala. Ainda faltam praí 400 metros. E se tu não te calas com essa história... já estou agoniar! Já percebi a lição de humildade, já tenho a minha dose...

A panza da burra.

Mas a cada passo lembrava aqueles fantásticos e verdadeiros Homens, daqueles que não largam nunca uma presa, completamente apaixonados pela montanha. O passo da panza da burra não é tão difícil como o pintam (Certo que com cordas duplas [das de marca], friends xpto, entaladores, pés de gato coloridos, etc. etc.). 

 A 2ª panza
Mais uma largo ainda com outra pansita, e grito para a Natália. Vou sair em ensamble. E foram aí uns 150 ou 200 metros que o único cuidado era não mandar pedras para o abismo. Os 60 metros de corda esticada, não é o melhor para esta técnica, que pesam, e puxam para trás desequilibrando. De quando em vez ouvia um "- Espera!" ou "- Podes Seguir!", a Natália ia recolhendo os poucos pontos intermédios que fui colocando. 
No cume o vento cortava, e as vistas eram para grandes amontoados de nuvens, era hora de descer de novo para o buraco. 

O conforto do cabrales, ao abrigo da chuva.
Dormimos ainda mais uma noite ao pé do mastodonte calcário, o dia seguinte era de descida.

O dia acordou sem chuva, apenas com algumas nuvens altas e uma brisa mais calma. Aliás o primeiro dia desde que chegamos, em que o vento acalmou um pouco.
As vistas durante a descida.
Arrumar a tralha e a recuperar forças num banho quente no campismo turista.
O resto das férias seriam praia, museus e outras aventuras menos rochosas.
Depois de um dia de descanso rumamos pela costa, parando em algumas praias até ao país basco.
A dormida em Bilbao, era hora das regletes mitradas das molduras de museu.
Dormida algures por Sopelana, uma praia naturista muito porreira. 
Depois de uns mergulhos de sol e banhos de mar, regressamos pela costa para dormir no desfiladeiro de la hermida.
Consulta de croquis desportiveiros no bar da pousada la cuadrona. Consulta de internet, e o trabalho a chamar-nos à base.
Ainda fizemos umas vias de chapas só para gastar as unhas.
O Cueto Agero, que ficará para uma próxima.
Passagem por Potes e bora para paragens mais graníticas das terras lusas. Calcário é bom, mas muito só com Calgon! Eu gosto é do Radão!

domingo, dezembro 02, 2012

Férias II - Espejismos de Verano - Naranjo de Bulnes

Ainda sobre as férias...
Um dia de pausa, Cepeda no dia anterior e era dia de escalar mais... Combinado com o Filipe Carvalho sairíamos cedo para fazer uma via mítica a "Pidal Cainejo". Tudo corria bem, à excepção do vento que persistia desde a nossa chegada. O canal de "la celada" é um óptimo acordar dos músculos.

Chegados à base da parede Este, dirigimo-nos para a direita em direcção ao inicio da via. Destrepamos um pouco e chegamos ao sitio certo. Lembramo-nos de uma nota de atenção para a queda de pedras. O vento soprava cada vez mais furioso. Numa breve troca de impressões decidimos que não era via para aquele dia...

Não dispúnhamos de croquis de outras vias nas imediações. Mas lembramo-nos de um rapel em 2010, quando fizemos a "Amiguinhos do Demo", a "Espejismos de Verano"! Encontra-se na espectacular rocha da parede Este. As reuniões estão equipadas e o traçado é mais ou menos evidente. Com apenas estas ideias e muita vontade de trepar, encordamo-nos e começamos a correr parede acima.

A via deve começar mais ou menos por aqui. É subir o comprimento das cordas que a reunião deverá estar algures por lá...

À direita a chaminé caracteristica do 3ª largo da Cepeda. A reunião decerto era mais abaixo.


À Procura das Argolas Perdidas II














Filipe Carvalho à frente no jogo da procura.














No Final da via. Apesar do jogo da procura das argolas, nunca nos perdemos. A via é pouco equipada mas as reuniões encontram-se alinhadas. Divertimo-nos muito nesta via aérea e espetacular.


Já adiantada a hora e algumas cordadas ensarilhas por cima, pesaram na decisão de não seguir pela Cepeda até ao Cume. Optamos pelo rapel fácil em direcção à cerveja com preços difíceis...






Ahhh! que sabor único. Que saudade das pequenas coisas, que só a montanha torna magníficas.


No Boeiro, aliás na tenda. Parecemos Lactarius deliciosus!

segunda-feira, outubro 15, 2012

Cepeda - la via elegante

E depois do dia de descanso forçado pelo peso bruto das mochilas e do sol intenso, decidimos colocar a mão na rocha. Como a face oeste fascina qualquer escalador incauto, lá fomos nós conhecer o que é de facto escalar na oeste.
















Murciana, 1º largo
A parede caracteriza-se pela verticalidade que resulta numa escalada bastante atlética. Lá fomos nós cedinho cedinho para ganhar tempinho. 





















Murciana travessia do 2º largo
Este cedinho, para além de um alinhamento astral nefasto, foi culpado de muito enjoo, falta de apetite, tonturas, diarreias e chegada à conclusão que "não era via para aquele dia". Com uma dose muito grande de humildade, rapelamos com a cordinha entre as pernas.
















O 3º Largo por cima de nuestras cabezas.





















 Cordada Portuguesa (Mário e Maria João) no 3º Largo 

Ainda cheios de ganas para escalar, contornamos o Picu Urrielo e fomos à cara Este fazer a via Cepeda.





















1º Largo, calcário espectacular mega aderente.





















Sérgio na saída do 2º largo





















Sérgio na super escalada da parede este.

















Os irmãos Cano que já tinham feito a Diretíssima com saída pela navarro (julgo que não foram à murciana, porque estava ocupada [vai-se lá saber por quem...]).
Quando iniciamos a Cepeda eles passaram a correr para ir à "Pidal Cainejo", e voltam a  passar por nós a meio da Cepeda. Quando estávamos a passar no buraco da Cepeda, vemo-los a acabar de gatas a sul directa, as 4 caras em 10h... 

















Na útima reunião, agora com companhia.
















Taia a espreitar pelo buraco de saída






















E assim salvamos o nosso dia, com uma super escalada. Obrigatória.
Que o abismo vos presiga
Abraço
AB

quarta-feira, setembro 12, 2012

Urriellu - Sub-ida 19.08.12

Partimos para os Picos no dia 17 de Agosto.
Fomos dormir ao desfiladeiro de "La hermida", onde estavam o Cardi&Claúdia e o Topas&Olga.

No dia seguinte visitamos a praia do "Pechon". Onde acabamos por ficar para jantar e dormir.

No Domingo dia 19 preparamos o material e carregados que nem camelos, com comida para 6 dias, tenda, ferragens variadas, etc etc. iniciamos a aproximação.

Tínhamos caminhado cerca de 200 metros, o calor era abrasador. Paramos e chegamos à conclusão que com aquele peso dificilmente chegaríamos ao refúgio.

Foi nesse lampejo de consciência, que tivemos uma miragem, como um oásis no deserto. Uma linda e forte mula, com cara de quem carregaria com gosto os nossos pesados fardos.
Deixou pasmacenta que lhe coçássemos as costas e que fizéssemos festinhas várias. Mas quando de súbito saco do cordino, para lhe fazer a soga, afastou-se rapidamente para distância segura. Ainda persisti neste jogo do "apanha-me se fores capaz" várias vezes. A Natália perguntava:
- Mas ela depois desce sozinha desde o Naranjo?!
- Desce, claro que desce. 
- Mas e o dono... Deve ter dono. Não?
- Upssss! Às tantas não é boa ideia, ainda somos acusados de roubo... Ainda somos presos e torturados.  


Refizemos as mochilas e lá voltamos à penosa subida.
Com o contra tempo da Apanha da burra, o tempo tinha ficado mais fresco. Ou estaríamos a habituarmo-nos à carga... O certo é que fomos subindo. 

Chegamos ao refúgio de noite. Depois de cerca de 5 horas de grande esforço.

Mal chegamos, ainda de mochilas às costas, ouvimos hablar português. De noite escura, não sabiamos de quem se tratava, mas lançamos um:
- Boa Noite!
- Olá Sérgio! Olá Natália!

Eram: Filipe Carvalho, Nunito "Máquina" e Pedro Pimentel.
Tinham escalado e no dia seguinte iam fazer um dia de descanso.
Pois, nós com a estucha da subida faríamos igual.

Montamos tenda e depois de mais algum convívio fomos dormir.

No dia de descanso tivemos oportunidade de conviver com mais portugueses, o Mário Pulquério e a Maria João que também lá estavam e queriam ir à mesma via que nós.

Passamos ao dia a mirar as cordadas na parede e a fazer prognósticos. Foi uns dias muito bem passado e o ambiente do campo base era bem lusitano.

A imponente face oeste do Pico Urriellu



Não percam as cenas do próximo episódio: abismados tocam na rocha....
Até breve
AB

terça-feira, setembro 04, 2012

"Toma lá... [esperança]" 1 de Julho de 2012

Respondendo a um desafio do Fernando Pereira para escalar pelo norte. E face às ameaças de chuva, fomos ao local onde é possível escalar "lloviendo, blá, blá, etc...", ou seja ao coelhódromo.Sabendo por portas travessas que havia uma via NOVA da dupla rppd. Decidimos um pouco por "precipitação" fazer a 1ª repetição, mas como não tínhamos croqui: ensarilhamos.


Fernando Pereira a Abrir as Hostilidades.

Abrigarmo-nos na Gruta da forte chuvada.




Fernando a ver como chove.

O bloco da gruta.

O flamigerado crux "Alvarinho" a resolver molhado e em semi-libre.


A espectacular fissura do 4ª Largo.



Na reunião já enganadinho na entrada da chaminé da via "Esperança"

Fernando rodeado de Amigos. 



- Acho que já passei aqui! - dizia a Natália.
- Não! São chaminés paralelas daí a semelhança...

Felizes no alto da MONTANHA.

Temos que voltar para fazer a metade superior.
Mais uma excelente "meia" via no reino do coelhinho.



sexta-feira, agosto 17, 2012