segunda-feira, julho 07, 2014

PARALLAX. 3 de Maio 2014

2012-04-5 e 6
Estávamos na Páscoa de 2012.


Por lá andavam outras cordadas mas o tempo andava húmido.
Numa quinta-feira dia 4 de Abril de 2012, rumamos eu e a Natália, à zona da fraga da Meadinha conhecida como o "legado", em homenagem aos espanhóis e portugueses, que deixaram esta zona da parede para as gerações futuras.

É claro que isto contraria a máxima, inscrita nos evangelhos de Susifer, de que na Meadinha está tudo aberto. Talvez não seja uma "máxima", mas sim uma "profecia", uma espécie de boas NOVAS.  Desta forma o "Está tudo aberto" passa a "Estará tudo aberto", como quem diz que um dia na Meadinha, tudo será aberto e tudo será encadeado em livre.

E mais tarde, muito mais tarde, "...virá UM que será muito maior do que nós, fará todas as vias, no dia e sem corda, e nesse dia vai chover, nevar e no final fará muito calor, um Anjo descerá em rappel a tocar corneta. Uma poderosa voz de uma nuvem escura dirá '...lo tengo todo' e soltará um forte guincho de coelho..."

Com estas e outras divagações, entramos naquele tempo, pela "Caravela Roxa", e montamos reunião com "entalecos", num confortável patamar.

Saímos do patamar, por uma fissura diagonal para a direita, ainda comum à "Caravela Roxa", direito a um pequeno muro vertical.  Este muro particular, com cerca de 3 metros, e uma fissura de cada lado marca o início do terreno inexplorado.
Superado este muro possível de proteger com material móvel, a parede tomba para placa e as fissuras cegam. O que muda o tipo de escalada agora para placa, e sem possibilidade de proteção móvel. Um piton que abana ao vento dá para enganar a sensação de vazio, e com mais alguns passinhos, chegamos a uma primeira chapa.
Este largo foi uma óptima escola de como colocar "pernos" em cima de "nhunhas". A progressão durante a abertura foi quase sempre recorrendo a unhas, quer devido à dificuldade em colocar material, quer à sujidade da parede. A demora na decisão de subir mais uns centímetros, faz-se notar bem no exagero do escovado. Já é tradição, que não havendo nada melhor para fazer, escova-se (geralmente escova-se mais quando não se vê uma possibilidade de progressão).
Com estas coisas neste primeiro largo, julgo que com o famoso e pesado barbecas do MC, colocamos 1 ou 2 pontos e descemos, deixando uma corda fixa - foi o primeiro dia.

No dia seguinte, sexta-feira santa, chovia copiosamente e acreditando (ou querendo acreditar) nos evangelhos, metemo-nos à parede, mas só deu com muita dificuldade e algumas escorregadelas para recuperar o material - foi o segundo dia.
O Sábado passamos quase à lareira e no Domingo fomos à autopista.



2012-7-1 - Conclusão do 2º Largo

A 1 de Julho daquele ano, decidimos ir terminar o largo das "fissuras paralelas", a burilador e com a sujidade existente, custou muitas horas o metro - foi o terceiro dia.












A chaminé do 3ª largo, ficaria para depois.


O Terceiro largo, visto de perto parecia aterrador. Era necessário ir espairecer, ganhar forma e coragem.

O rasto de caracol!




2012-10-6 e 7 - Abertura 3ª largo.

Voltamos 3 meses depois, não por estar mais em forma, ou por ter mais coragem. Voltamos porque certamente já nos tínhamos esquecido das visões aterradores (acontece sempre assim). No sofá de casa é tudo fácil e fazível, e é esta amnésia que nos vai permitindo sempre regressar.

E queria-mos também forçar em livre o 2º largo.

Desta vez com uma variante de entrada, de uma via antiga, que não aparecendo nos croquis 'oficiais', tem lá um piton a confirmar, tinha-mos escovado esta via esquecida por cima - foi o quarto dia.

Numa conversa com o Pedro Pacheco, ele falou de uma técnica de levar, julgo que uma foice na ponta de uma vara, para ir cortando as silvas e limpando à medida que ia subindo. Isso deu-me "cá uma ideia", e pensei em colocar a escova d'aço na ponta do bastão, assim conseguiria escovar mais metro e meio! Era como uma viajem ao futuro, conseguir ver os gratons escondidos pelo musgo, com uma antecedência até então impossível. E desta forma o leque de decisões ficava mais aberto. No terreno a técnica não se mostrou assim tão espetacular por várias razões. Desde o desconforto de carregar aquilo, o lixo que caia nos olhos, etc. Mas principalmente o facto de estando já escovado não tinha o pretexto para PARAR a escovar, era como se fosse pressionado / obrigado a ir, muitas vezes sem estar preparado mentalmente... Assim logo que pude deixei o bastão pendurado num ponto e segui à moda antiga de escova em punho.

Natália a chegar ao patamar da "caravela roxa", onde montamos a R1

Característico e bonito murinho.




O anoréctico da escovagem!







Natália a dar segurança de uma reunião, mais confortável (da via "Esperança").


A fissura vai cegando até que se transforma em placa. Onde foram colocadas algumas protecções fixas. Com uma curta travessia para a direita, ganha-se um novo canal/fissura. Daqui e já sob a luz ténue das estrelas rapelamos - foi o quinto dia.

2014-5-3 - Abertura 4º e 5º largo. Final.

Depois de um grande intervalo, havia que voltar.

Saímos na Sexta-feira dia 2 de Maio, e seduzidos por perfis montanhosos, vagueamos por terrinhas e aldeias à procura do desconhecido. Perto de Ponte da Barca, metemos por caminhos novos, passamos a Ventozelo, chegamos a Castelo de Aboim já de noite, afinal era este o cucuroto tipo cervino que se via muito ao longe.
Pelo caminho passamos em bloquinhos e fissurinhas, algumas espetaculares como esta com cerca de 10 metros.



Paramos para comer qualquer coisita, nas lagoas acima do Soajo e chegamos à Peneda já bem avançada a noite.

No dia Seguinte para além de terminar a via, tínhamos que plantar dois carvalhinhos, um nosso e outro a pedido do Sérgio Duarte. Duas árvores que recebemos, eu e ele, a quando da participação no Carlos Sá Gerês Trail Adventures.


Os dois carvalhinhos






Na plantação.


1º Largo da "Caravela Roxa"





Desde a R1, ainda na "Caravela Roxa",
a sair do característico murinho, que marca a entrada na PARALLAX.
À esquerda é possível ver a fissura diagonal, variante de entrada.




3º Largo, que foi vencido em Artificial.

Para além de tentar uma vez mais forçar em libre o 2º Largo, havia que chegar rapidamente ao ultimo sítio "conquistado", assim fica melhor dizer que o 3º largo foi em artificial na integra.

Chegamos bastante rápidos à R3, onde coloca-mos mais uma chapa para a reunião.

Acrescentar um ponto na 3ª Reunião,
com cara de maus...






Mais um ponto para ganhar a fissura, sem extrema exposição.



 Daqui ganhamos uma fissura, chaminé, canal, que nos leva ao confortável "patamar das caravelas", 
No canal do 4º Largo

Mais um pequeno largo de fissura, chaminé, canal e chegamos ao cume - foi o sexto dia..

5º largo


5º largo




A tradição já não é o que era... Abrir via, sair por cima e descer ainda de dia?!





Fica o croqui.
Entretanto, ao sétimo dia [enquanto nós descansava-mos], a via teve a sua primeira repetição, pelo MC e Rodas. O segundo largo foi encadeado à vista pelo Rodas. Falta "livrar" o 3º Largo. Candidatos?!



sexta-feira, julho 04, 2014

terça-feira, maio 27, 2014

sexta-feira, maio 09, 2014

Páscoa 2014 - Ataque ao coelho - 17, 18, 19 e 20 de Abril - Tomo II

Sábado 19 de Abril
Depois de momentaneamente saciada a saudade de escalar, havia que enfrentar medos pendentes.
Os dois primeiros largos já estavam abertos, limpos e encadeados há largos meses.

MC a abrir o 2º Largo, Junho de 2012

a repetir o 1º largo em Setembro de 2012

Mc a repetir o 2º largo em Setembro de 2012





Taia no "Passo da guilhotina", 2º largo, Setembro de 2012

Incursão na placa do 4ª largo, Setembro de 2012
(nesta altura escalamos por um diedro que descobrimos ser da 3º Porta para Shambala)


Algumas incursões ao 4º largo também já tinham sido feitas. Já tinha-mos todos mais ou menos interiorizado o traçado final, mas talvez por sabê-lo penoso não se reuniram vontades, e a saída por cima foi sendo adiada.

Por onde ficamos em 2012


























Chegou a época dos festejos ao coelho (Páscoa 2014), e com as desculpas esgotadas regressamos cheios de vontade. Havia que escalar rapidamente o terreno conhecido, para chegar a mares nunca antes navegados.

O MC abre o primeiro largo que partilha a 1ª reunião da "edelweiss". No segundo largo, permitiram-me ir leve o suficiente para encadear. Isto de berbequins quitados com baterias de mota, até que fazem muitos furos, mas pesam como mil demónios.



com a cabeça na Guilhotina

A chegar à R2

Chegados ao fresco bosque da 2ª reunião, o MC enfrenta um pequeno extraprumo, onde coloca 2 pernos. Ajudado por um kit de nhunhas + umas poderosas garras de crocodilo, um mix infalível excepto quando salta a nhunha! Como aconteceu, e aí bate-se com força no patamar.








Depois deste snack de adrenalina, há que sair tranquilamente para a placa, e ir escovando centímetro a centímetro à procura dos pequenos gratons, sempre com a miragem de uma fenda que se aproxima. Para de novo em placa chegar ao patamar, da travessia da 3ª porta para shambala, aproveitando a confortável reunião desta.



A confortável reunião do segundo largo



Tínhamos acabado de abrir o largo de ligação que nos faltava a esta placa, onde já tínhamos chegado, salvo erro há dois anos, e colocado 3 chapas a "burilador". Muito cansados naqueles tempos, alternavamos umas 10 marteladas cada, baixava-mos rapidamente a descansar no conforto do patamar.


Em 2012, a trocar de turno.





























Calha-me sair à frente, e passando as 3 chapas de terreno já conquistado, há que sacar de escova. E isto de içar 14 kilos de bateria, sobre uma nhunha mal assente num grão de milho, dá vontade de seguir mais um pouco à procura de pepitas maiores, idealmente do tamanho de nozes, mas se forem do tamanho de uma azeitona menos mal, e daí pode-se içar a pesada carga, afastando rapidamente as lembranças do arejo, e dispersar os tremores na paisagem, que afinal aqui de cima as vistas até são largas e bem bonitas.



Chegada a máquina, há que acomodar as baterias para que o fio chegue, mas de forma que o seu peso ajude no precário equilibrio. Este parágrafo todo, só do saudosismo do meu burilador de duzentos gramas. Onde há só a parte comum à diabólica máquina, de esticar o braço devagarinho, mas de forma que o ângulo do perno fique minimamente correcto, e certificando a existência de algo que se possa agarrar  para permitir a chapagem, aos bravos repetidores.



Pensava eu que aberturas de burilador, forçavam a consciência na hora de furar, a uma reflexão profunda sobre eventual necessidade. Que de burilador se furava sempre menos, porque com a bruta máquina, o trabalho facilitado dá aso a precipitações.
Mas, é exactamente ao contrário!
Quando me via sobre frágeis gratons, só a lembrança de içar tamanha carga, (não fosse a minha já suficiente), me fazia dar mais dois ou três passinhos nervosos na procura de algo mais sólido.

Ou talvez seja mais uma miragem de fenda, que com cântico de sereia, faz-nos naufragar nas placas sem regresso.
O desejo ou o auto-engano, de que nela a proteção será plena e duradoura, faz-nos ir cegos. Mas eis que dita "fenda" já ao alcance, não é mais do que uma pequeno lábio aberto, que beija como quem morde, e nesse momento a crua realidade bate de chofre, a última chapa reluz lá em baixo ao longe. Puxar a máquina é para esquecer, o pânico! Ou a paisagem que está erguendo os olhos e é larga e bela. E refrescados sempre se sobe mais um pouco. Com estes ou outros sentimentos, (com estes a história fica melhor), coloquei mais dois pernos.






É felizmente a vez do MC. Repensamos a estratégia a três! A Natália tratava de assegurar, eu subi por uma corda que o MC fixou na primeira chapa, e com a ajuda de um estribo consigo colocar-me bem alto, para segurar as baterias. Desta forma o MC pode estar sobre os crocantes gratons sem o peso adicional, e fazer a bricolage mais levezinho.







Coloca mais dois pernos, sai em livre e no último momento, com um dinâmico a duas mãos lança-se no ar, o tempo desacelera ou nós que estupefactos é que congelamos! Crava os seus dedos arqueados em dois tufinhos de erva, soltando um cómico MIAUUUU!
Demorou tempo até conseguir-nos rir. Talvez o tempo em que ele esgravatou com os pés, até conseguir sair em mantel para o patamar ervoso. Onde uns carvalhinhos e umas fendas permitem montar uma confortável reunião.














Novamente eu à frente, novamente placa, depois de colocar uma primeira chapa já no lusco-fusco é hora de descer, que amanhã também é dia.

Ao rapelar o MC diz que viu uma víbora cornuda na fenda do 2º largo da cânticos pastais, que usamos para rapelar. Com pouco apetite e já demasiado tarde, não cozinha-mos, comemos umas coisitas tipo snack e fomos nanar.


20 de Abril. Domingo de Páscoa. Aleluia habemos via.
Combinamos começar a escalar às oito ou oito e meia, até nos levantamos bem cedo, mas com os preparativos todos só saímos do chão lá para as dez.
Para aceder rápidamente à "zona", onde tinha-mos chegado no dia anterior, escalamos a cânticos pastais, recusando-me a enfrentar a víbora e até porque já tinha sacado o 2º largo, fiquei com o primeiro e o Cunha abriu o segundo.

no passo da víbora cornuda

MC no 2º e espetacular largo da "cânticos pastais"

Estes dois largos são de grande qualidade e beleza, obrigatórios para quem não conheça.
Desde a R2 da  cânticos pastais, metemo-nos num diedro que deve ser da via 3ª porta para shambala, e fazendo uma travessia, acedemos à reunião no patamar dos carvalhinhos.









Usando a técnica do dia anterior coloco mais um perno. Daqui nova miragem de fenda, mas nesta é possível proteger com um amigo dos grandes.





De novo trabalho a três para colocar mais três pernos. E num golpe de coragem, quase obrigado, o MC sai para a esquerda, por bons gratons para um esporão que faz fronteira com o "jardim da árvore oca".



O sol ia já adiantado na sua caminhada rumo ao horizonte. Tinha-mos a opção da saída pelo canal, ou aquele largo espetacular, do qual ninguém tinha falado... como manda a etiqueta do bom cavalheiro.

O MC disponibilizou-se para ir espreitar, estávamos já com receio das horas, mas todos com vontade de terminar. Depois de algumas hesitações e mais trabalho de equipa, depois de um off-width inicial, onde foi colocado um perno e um diedro final onde mantivemos um carvalhinho. Estávamos na reunião por cima da cabeça do grande símio. Felizes e cansados. Nuvens negras a aproximarem-se fizeram-nos acelerar o passo para o largo de saída da "Duelo ao Sol".

início do off-width




Off-width onde foi colocado um perno.

MC à procura da transição para o diedro / fenda, onde colocar "amigos de confiança"


diedro do carvalhinho


a moda das selfies
Parapapapapapapapapapa Parapapapapapapapapapa
Papara, papara,
Clack Bum
Parapapapapapapapapapa



Chegamos ao cume já de noite. Baixámos carregados, sujos e suados, comemos umas latas de sardinhas já perto da meia noite. O MC ficou lá a dormir, e nós com compromisso cedo para o dia seguinte, regressamos a casa.


Na fronteira do "legado"





Fica o esboço de croqui, ainda a afinar os graus, porque não tivemos tempo de forçar em livre os últimos largos.

Aos repetidores, levar um jogo completo de friends, 5 e 6 incluido. Um jogo de aliens / microfriends.

Que o abismo vos proteja.
AB