2012-04-5 e 6
Estávamos na Páscoa de 2012.
Por lá andavam outras cordadas mas o tempo andava húmido.
Numa quinta-feira dia 4 de Abril de 2012, rumamos eu e a Natália, à zona da fraga da Meadinha conhecida como o "legado", em homenagem aos espanhóis e portugueses, que deixaram esta zona da parede para as gerações futuras.
É claro que isto contraria a máxima, inscrita nos evangelhos de Susifer, de que na Meadinha está tudo aberto. Talvez não seja uma "máxima", mas sim uma "profecia", uma espécie de boas NOVAS. Desta forma o "Está tudo aberto" passa a "Estará tudo aberto", como quem diz que um dia na Meadinha, tudo será aberto e tudo será encadeado em livre.
E mais tarde, muito mais tarde, "...virá UM que será muito maior do que nós, fará todas as vias, no dia e sem corda, e nesse dia vai chover, nevar e no final fará muito calor, um Anjo descerá em rappel a tocar corneta. Uma poderosa voz de uma nuvem escura dirá '...lo tengo todo' e soltará um forte guincho de coelho..."
Com estas e outras divagações, entramos naquele tempo, pela "Caravela Roxa", e montamos reunião com "entalecos", num confortável patamar.
Saímos do patamar, por uma fissura diagonal para a direita, ainda comum à "Caravela Roxa", direito a um pequeno muro vertical. Este muro particular, com cerca de 3 metros, e uma fissura de cada lado marca o início do terreno inexplorado.
Superado este muro possível de proteger com material móvel, a parede tomba para placa e as fissuras cegam. O que muda o tipo de escalada agora para placa, e sem possibilidade de proteção móvel. Um piton que abana ao vento dá para enganar a sensação de vazio, e com mais alguns passinhos, chegamos a uma primeira chapa.
Este largo foi uma óptima escola de como colocar "pernos" em cima de "nhunhas". A progressão durante a abertura foi quase sempre recorrendo a unhas, quer devido à dificuldade em colocar material, quer à sujidade da parede. A demora na decisão de subir mais uns centímetros, faz-se notar bem no exagero do escovado. Já é tradição, que não havendo nada melhor para fazer, escova-se (geralmente escova-se mais quando não se vê uma possibilidade de progressão).
Com estas coisas neste primeiro largo, julgo que com o famoso e pesado barbecas do MC, colocamos 1 ou 2 pontos e descemos, deixando uma corda fixa - foi o primeiro dia.
No dia seguinte, sexta-feira santa, chovia copiosamente e acreditando (ou querendo acreditar) nos evangelhos, metemo-nos à parede, mas só deu com muita dificuldade e algumas escorregadelas para recuperar o material - foi o segundo dia.
O Sábado passamos quase à lareira e no Domingo fomos à
autopista.
2012-7-1 - Conclusão do 2º Largo
A 1 de Julho daquele ano, decidimos ir terminar o largo das "fissuras paralelas", a burilador e com a sujidade existente, custou muitas horas o metro - foi o terceiro dia.
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A chaminé do 3ª largo, ficaria para depois. |
O Terceiro largo, visto de perto parecia aterrador. Era necessário ir espairecer, ganhar forma e coragem.
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O rasto de caracol! |
2012-10-6 e 7 - Abertura 3ª largo.
Voltamos 3 meses depois, não por estar mais em forma, ou por ter mais coragem. Voltamos porque certamente já nos tínhamos esquecido das visões aterradores (acontece sempre assim). No sofá de casa é tudo fácil e fazível, e é esta amnésia que nos vai permitindo sempre regressar.
E queria-mos também forçar em livre o 2º largo.
Desta vez com uma variante de entrada, de uma via antiga, que não aparecendo nos croquis 'oficiais', tem lá um piton a confirmar, tinha-mos escovado esta via esquecida por cima - foi o quarto dia.
Numa conversa com o Pedro Pacheco, ele falou de uma técnica de levar, julgo que uma foice na ponta de uma vara, para ir cortando as silvas e limpando à medida que ia subindo. Isso deu-me "cá uma ideia", e pensei em colocar a escova d'aço na ponta do bastão, assim conseguiria escovar mais metro e meio! Era como uma viajem ao futuro, conseguir ver os gratons escondidos pelo musgo, com uma antecedência até então impossível. E desta forma o leque de decisões ficava mais aberto. No terreno a técnica não se mostrou assim tão espetacular por várias razões. Desde o desconforto de carregar aquilo, o lixo que caia nos olhos, etc. Mas principalmente o facto de estando já escovado não tinha o pretexto para PARAR a escovar, era como se fosse pressionado / obrigado a ir, muitas vezes sem estar preparado mentalmente... Assim logo que pude deixei o bastão pendurado num ponto e segui à moda antiga de escova em punho.
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Natália a chegar ao patamar da "caravela roxa", onde montamos a R1 |
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Característico e bonito murinho. |
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O anoréctico da escovagem! |
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Natália a dar segurança de uma reunião, mais confortável (da via "Esperança"). |
A fissura vai cegando até que se transforma em placa. Onde foram colocadas algumas protecções fixas. Com uma curta travessia para a direita, ganha-se um novo canal/fissura. Daqui e já sob a luz ténue das estrelas rapelamos - foi o quinto dia.
2014-5-3 - Abertura 4º e 5º largo. Final.
Depois de um grande intervalo, havia que voltar.
Saímos na Sexta-feira dia 2 de Maio, e seduzidos por perfis montanhosos, vagueamos por terrinhas e aldeias à procura do desconhecido. Perto de Ponte da Barca, metemos por caminhos novos, passamos a Ventozelo, chegamos a Castelo de Aboim já de noite, afinal era este o cucuroto tipo cervino que se via muito ao longe.
Pelo caminho passamos em bloquinhos e fissurinhas, algumas espetaculares como esta com cerca de 10 metros.
Paramos para comer qualquer coisita, nas lagoas acima do Soajo e chegamos à Peneda já bem avançada a noite.
No dia Seguinte para além de terminar a via, tínhamos que plantar dois carvalhinhos, um nosso e outro a pedido do Sérgio Duarte. Duas árvores que recebemos, eu e ele, a quando da participação no Carlos Sá Gerês Trail Adventures.
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Os dois carvalhinhos
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Na plantação. |
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1º Largo da "Caravela Roxa" |
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Desde a R1, ainda na "Caravela Roxa",
a sair do característico murinho, que marca a entrada na PARALLAX.
À esquerda é possível ver a fissura diagonal, variante de entrada. |
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3º Largo, que foi vencido em Artificial. |
Para além de tentar uma vez mais forçar em libre o 2º Largo, havia que chegar rapidamente ao ultimo sítio "conquistado", assim fica melhor dizer que o 3º largo foi em artificial na integra.
Chegamos bastante rápidos à R3, onde coloca-mos mais uma chapa para a reunião.
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Acrescentar um ponto na 3ª Reunião,
com cara de maus...
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Mais um ponto para ganhar a fissura, sem extrema exposição. |
Daqui ganhamos uma fissura, chaminé, canal, que nos leva ao confortável "patamar das caravelas",
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No canal do 4º Largo |
Mais um pequeno largo de fissura, chaminé, canal e chegamos ao cume - foi o sexto dia..
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5º largo |
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5º largo |
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A tradição já não é o que era... Abrir via, sair por cima e descer ainda de dia?!
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Fica o croqui.
Entretanto, ao sétimo dia [enquanto nós descansava-mos], a via teve a sua primeira repetição, pelo MC e Rodas. O segundo largo foi encadeado à vista pelo Rodas. Falta "livrar" o 3º Largo. Candidatos?!